segunda-feira, 30 de julho de 2012

Pouco Chão

Prolongavam-se silenciosos, e era uma grande farsa - esgotavam-se quaisquer subterfúgios. Alheio o lampião ainda bebia a querosene. Feitio feitiço de espera. Libertado o canto. Da chaleira e da água. Libertado o canto. Do fogo ao bico que reinventava o braço forte estendido pelo cabo do machado. O primeiro fogão. A lenha boa e as lenhas úmidas. O primeiro liquinho que o companheiro trouxe a casa. Aos poucos, essa repetição do mundo vinha às vistas dela, que pressionava as mãos junto ao rosto, e chegava a corar. Uma expressão frágil de quem se escapa do presente, como se não houvesse volta. Mas sempre voltava, bastava o arrastar das sandálias do companheiro para refazer-se atenta. Tivesse ou não, ele, algo a falar, todos os dias ela forjaria algum comentário sobre o tempo, sobre os netos, sobre a terra, sobre Poderia dizer que ela se conformava, que achava justo que os filhos ganhassem o mundo. Que mesmo não conhecendo a última leva de netos, estariam bem cuidados. Os filhos eram gente de bem. A vida amansava. Fazia par na canseira da cama. O dia demorava a clarear. Enquanto uma mola se soltava do colchão, e ele já estava a postos, impaciente. E ela enrolava-se um pouco, antes de lavar o rosto. Tomavam aos poucos, pela manhã, seus postos pela casa, e os pássaros comunicavam-se. Ele tinha seu próprio percurso, e quase nunca, se acomodaria no sofá antes do sol do meio dia. Ela preparava a água. Para o café. Pensava na ausência dos galos e dos vizinhos. Percebia em silêncio que o mundo 'ficava menor'. Julgava que ele não sentia falta de conversa ou de gente. Mas mesmo assim, se metia na frente do trajeto dele pela casa. Só para ouvir um resmungão qualquer. Numa dessas vezes, havia ele dado uma risada bonita, depois de se chocarem entre o quarto e a sala. Ficara muito feliz. Mas foi uma vez, e só. Na mesa da cozinha, pela metade, um saco de farinha protegido por um guardanapo sem bordado. Ela pegaria o pão no forno, e colocaria sobre a mesa. Dirigir-se-ia para a sala, esperando a água ferver, no sofá, atenta aos passos dele e ao recorte da janela. Então a raiz frágil da vida crescera tomando forma sobre o solo, ramificando-se na pele, talhando-se pela lâmina de um machado invisível, velada sobre o ferro negro, pelos bicos e baques das tampas, repetir-se-in-do-se para ela em memória viva. Era do vermelho a benção. E do azul a corrente fluída do movimento. Do sexo. Dos filhos. Das chuvas. A juventude não ressecaria. Mesmo que ela não indagasse tais coisas. Carregava nas bordas dos vestidos, prezada sabedoria. Fatiou-se o tempo, oitenta e cinco vezes. O assovio do bico de chaleira percorreu lento o ouvido direito dele, sem anunciar nada dessa vez. Sem par, veio a ela, o segundo assovio, delirante, percorrendo maestro o par de labirintos. Os nervos da face dela tensionaram. Pensou uma última vez, a vida fora boa. Um terceiro assovio penetrou os cômodos pleno de ausência. Dentro de uma gotícula de vapor, uma confissão desse que vos narra: Perto do abismo de não mais existir, o que tinham, era pouco chão, silêncio e adeus. Sandro Filho

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Então virava a página. Não representava nada. Presente em movimento era ela. Sem colina, dentro da margem, o rabisco tentava escapar. Moviam-se águas e azuis. Moviam-se mais calmos. E o balde de tinta que ele sempre afastara, agora era pista de sabão sobre a lona. Com os dedos atentos, perguntou a si mesmo, se poderia agora finalmente agarrar o que deslocava naturalmente? Dilatamos o tempo como uma agulha jamais dilataria um pequeno pedaço de seda. Estávamos dentro do túnel sozinhos, percebi a tinta escorrendo por todos os poros, vislumbrei-a doce e serena.

22 de março de 2012

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Os verdadeiros poetas não fingem. Já nascem sangrando, bebem água do parto, partem para qualquer lugar. Da cana da venda, ou do sol se pondo. E das águas das chuvas que movem a terra vermelha.


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SLRF

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Depois dela, vieram outras. Algumas mais duras, mais enrugadas e doídas. Mas foi apartir da primeira que surgiu essa vontade de desfazer todos os nós, apagar números de telefone, percorrer rotas rumo a estaca zero. As roupas todas amontoadas no parquê, um litro de gasolina, e depois fogo. A transformação lenta e bela das perdas em cinzas, tecendo-me o tempo ao avesso. Como ontem em que tomei a primeira, enquanto bebia café escorado na janela e olhando através do muro nos fundos de casa, transpassando-o em tom maior. Mesmo que não fosse o muro, era você, o planeta, o universo. Todos inflando-me de ortigas e de líquido. Com o tempo e ao avesso, eu ia descobrindo mais. Por exemplo, artérias por entre o concreto do muro, o plástico em teus cílios, a tintura num copo de leite, o pulso vivo numa caneta de plástico comum. Uma nova porta, e a cada segundo, antes e depois das primeiras, antes do inevitável deserto dentro do mergulho de ti - e depois da sobra vulcânica de mim dentro dos mares - havia o agora, e o frio que até aos ossos me dourava, enquanto eu retribui-a-lhe o furto de uma flor.

SLRF

domingo, 15 de agosto de 2010

è frio o poço. E quando te ouço, sei que são ecos.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

. Aos poucos, fui desfazendo nós por entre os cabelos emaranhados, eles iam caindo cambaleantes na pia branca, pareciam dançar tango no ar que os envolvia, rodopiavam faiscantes - aroma de alecrim, - os via ali, súbitos, desfalecidos. Foi assim que aprendi a perder. Pensei em você, logo após arrancar o primeiro fio. Depois arranquei outro, e depois mais outro e assim por diante até chamarem a minha doce despedida de histeria. . Houve um tempo em que os cultivei como crisântemos, deixava-os livres, esvoaçantes, flamejantes. E no fundo eu sabia que alguém se machucaria uma hora ou outra. Mas não é por isso que deixamos de amar, não é?

Viu, inevitável amor que nos escorre. Espelho turvo, dentro do que falo não há ensaio, nunca consegui decorar pequenas falas. Ignorando a memória do grande teatro, será que a gente tem uma chance de fugir daqui? Olha, a moça de branco voltou. Se esconde de baixo do cobertor, amanhã cedo a gente conversa. Vou ver se encontro uma borboleta com asas para você desenhar. Ontem sonhei contigo. . Já reparaste que as sirenes sempre tocam de madrugada por aqui? Eu acho que de noite eles aproveitam para matar os que dormem. Por isso que parei de dormir. E agora já não sonho mais contigo. Nem com tuas borboletas. . Vamos ao parque amanhã? Ontem o Marcos me trouxe um poema, tu já conseguiu ver dentro de um poema uma borboleta? Eu sempre vejo ultimamente. As asas são azuis e elas se movimentam tanto que não consigo ver nada além das asas de seda azuis. Será que a moça de branco também vem hoje? Eu queria te contar um segredo. Mas não posso te contar porque eu descobri para onde os barcos de papel vão quando a gente sopra demais. É triste. Deita aqui do meu lado. Dorme um pouco. Hoje eu desço a âncora, amanhã é a tua vez. . Queria falar sobre teus olhos, me parecem poéticos. Mas não sou bom com poesia. Será que consigo consertar aquele sofá marrom? Me falaram que há poesia boa dentro dele. Mas eu continuo preferindo castanhas e olhos castanhos. E castores são realmente bichos engraçados. Você não acha também que a palavra musgo, soa como a palavra âmago. Com o mesmo sentido, como se não andassem separadas. Pensando nisso, acho que o âmago do musgo, ou o musgo do âmago, serão sempre filhos de uma pedra úmida. Oh, dorme que a enfermeira vem vindo. SLRF

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Conversas com o andarilho.

Olha lá. Ele tah andando pela calçada desligado, um pé antes do outro. Parece um pouco mudado. Aura de quem deve estar pensando muito na vida, em alguém ou até em inutilidades cotidianas. Estranha sensatez no rosto, ele nunca nos pareceu sensato. Quem sabe o que isso significa? Sabe, ver tanto amor nas coisas cotidianas, nas pequenas frações de segundo... ...ao ônibus que não parou quando ele fez sinal, tempo para mais um cigarro, para o olho vivo no desenho das nuvens e nos carros e pernas vislumbrado por seu olhar paciente. Ouvi dizer que agora ele já tem mais 58 páginas escritas, talvez o livro saia mesmo. Ele nunca fora muito regrado para nada. Mas pode realmente estar mudando. Ele costumava procurar explicação para tudo. Acho que isso o atrapalhava. Mesmo tendo sido tudo tão inesperado. Simples assim, embarcar em um trem sem paradeiro próximo. Engolir o medo, a indecisão, delineando o passo pela beira, e afastando-se dos próprios destroços do caminho.